Mídias sociais: controle criativo ou criação sem controle?

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Existe um tipo de tempo para cada tipo de mídia. A internet, mais que outras mídias, traz alteração de tempo e espaço para a sociedade. O rádio e a televisão representam mídias massivas em que há possibilidade de alteração do seu conteúdo, ou seja, a indústria filtra as informações que são emitidas aos seus receptores. Na internet, por conta da comunicação entre os “IPs”, esse controle não é possível. Um bom exemplo da liberdade virtual são as redes sociais, onde a interação entre as pessoas é facilitada e não controlada. Porém, essas redes virtuais, que seriam perfeitas para ser utilizada como uma “Ágora Virtual” – lugar que comportaria um número enorme de pessoas para que discutissem sobre a política – acaba alienando e distraindo os seus usuários.

O poder da classe virtual de capitalistas puros ou capitalistas visionários está localizado naqueles que procuram lotear o ciberespaço para fins de acumulação capitalista e controle político. Há uma competição por direitos de propriedade intelectual e um desejo pelo monopólio da comunicação global de dados e a subordinação da rede aos “interesses comerciais predatórios da classe virtual”.

Quanto mais as redes são tratadas pelas corporações como uma grande fiação para se vender produtos a consumidores inertes, mais os hackers – indivíduos virtuais que não se portam como uma classe e atuam em certo sentido como uma multidão conectada, mas suas qualidades partem do individualismo – estão se politizando. A defesa da comunicação distribuída possibilitada pela internet dificilmente será feita pelas forças políticas tradicionais, e quando são é de forma não compreensível.Os Estados interessados no policiamento do mundo e as industrias de copyright tem em comum a tentativa de retirar da Internet as qualidades que a fizeram mais democrática do que as demais mídias de massa. A cultura da liberdade que caracteriza a rede incomoda esses segmentos e os lança em uma jornada de combate a atual dinâmica da Internet.Pelo medo da “excessiva liberdade na internet”, governos fazem rastreamentos com a justificativa de localizar terroristas ou evitar seus atos, mas na verdade se centram nas formas de controle já mencionadas e na indústria de copyright. Ao mesmo tempo em que a internet propicia uma enorme liberdade ela também possui um grande controle na vida do usuário.

É preciso, primeiramente, contextualizar a questão do controle do mundo virtual explicitando toda a discussão que engloba esse item. Sendo assim, apresenta-se a concepção das sociedades de controle.

Segundo o filósofo Michel Foucault, estas seriam nada mais, nada menos do que a projeção dos meio de confinamento – todos unidos, mas interdependentes entre si. E diferentemente das sociedades disciplinares que promulgavam as trocas institucionais da vida humana (da família para a escola, da escola para a caserna, da caserna para a fábrica), o enclausuramento valoriza o controle informacional. Aí é que aparece o capitalismo de sobre-produção. De acordo com Gilles Deleuze em sua análise sobre esse modelo social, Post-scriptum sobre as sociedades de controle, “o marketing é agora o instrumento de controle social (…) O controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado”.

Com isso se conclui que a cultura mercadológica assola nosso dia-a-dia extremamente controlado. E isso só poderia ser proposto, ou ainda mais intensificado, pela mídia. Que, sofrendo transformações constantes e cada vez mais rápidas em sua estrutura, e refletindo no desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação, além de fixar, transmitir e reproduzir a informação, – o que pode, de fato, ser algo positivo – subordina todos os indivíduos e formas antigas de divulgação noticiosa (mídia impressa) à televisão e, agora, com o advento do ciberespaço, à própria virtualização das relações sociais.

Um “parênteses” que se pode fazer ao discutir o tema, e falar de Foucault, faz referência à concepção de “vida nua” proposta por ele. Sua relevância aqui se expressasse justamente no fato de justificar o poder do soberano no sistema governamental. Ela seria associada à vida biológica, e explicaria a manutenção do corpo do cidadão, e não sua vivência. Com isso, observa-se que, contrariamente à imposição do medo ao homem na sociedade disciplinar (“tudo em nome da vida nua”), o “pão e circo” é reprogramado na sociedade de controle, convertendo-se em distração proposta pelo meio comunicativo e atingindo o maior número de pessoas na massa. Lembre-se que quantidade não é qualidade. E é com isso que, atualmente, os meios de comunicação mais desenvolvidos – tecnologicamente falando – têm de lidar.

A web não anula a função “jornalística-manipuladora” do televisor, mas pode agravar as consequências da cultura televisiva, que troca a leitura e o engrandecimento mental pela facilidade das imagens. Ao mesmo tempo, a internet aparece como propícia a uma interação recíproca entre emissor e receptor, já que este pode interagir diretamente. Sendo assim, alguns nomes se propuseram a discutir a influência da comunicação mediatizada, também no que diz respeito à informação digital.

Se, por um lado, o potencial das mídias pode trazer problemas e fortalecer relações de dominante e dominado, outro lado expõe a faceta que permite uma inversão da lógica ou reflexões sobre esta estrutura de dominação. Como no conceito de multidão, de Hardt e Negri, é possível verificar nos grupos – por maiores que sejam – de pessoas, um potencial enorme de energia criativa. Cada qual recebe as informações de mídia a seu modo, sem que possamos ignorar a bagagem cultural e pessoal própria de cada, bem como a capacidade individual de abstração e interpretação. Justamente por tais fatores, em plena sociedade de controle, as mídias são formas de dominação e de potenciais resistências.

Alguns exemplos desse potencial são os que ocorreram ao longo da Primavera Árabe, em que muitas das mobilizações gigantescas que derrubaram ditadores na região e geraram mudanças em países como Iêmen, Egito, Marrocos e Líbia. Essas mudanças no contexto político e social dos países, tenha sido ela adequada ou não ao ideal de democracia ocidental, foram potencializadas pelo uso de novas mídias (Twitter, Facebook e outros mecanismos de comunicação). As Jornadas de Junho, que ocorreram em diversas cidades brasileiras, demonstraram também o potencial das novas mídias e de uma população adepta de tais meios.

Entretanto, é importante salientar que tais movimentações políticas demonstram também certa dispersão e a necessidade de canalizar a energia criativa e o potencial de tais grupos. Para que as mudanças políticas não acabem por retornar à estrutura de dominantes x dominados já comum, reflexões acerca de tais acontecimentos, suas causas e suas consequências a curto e a longo prazo.

A internet é a maior expressão do atual capitalismo informacional. Ela oferece um tipo de liberdade totalmente vigiada e controlada. Seu objetivo é instigar a liberdade que os indivíduos têm de navegar pelo cyberespaço e experimentar diferentes e novas formas de interação social, de fontes de informação e de facilidades tecnológicas.

A questão, aliás, não é apenas vigiar, mas modular e parametrizar os usuários acompanhando suas variações de humor, seus objetivos, seus interesses. Com a análise de dados, de buscas e de visualizações na rede, é possível tentar controlar cada usuário. A internet, antes de tudo, é uma rede de comunicação e controle. E colaborando com esse controle se constata a aceitação do indivíduo ao se conectar a uma rede ciente de seus “termos de uso e privacidade”, aceitação esta que implica na entrega de inúmeros dados codificados aos programadores de tais redes. Quanto mais interatividade há entre os indivíduos, mais troca de informações e coletas de dados é possível pela web.

A nova expressão de poder é a biopolítica baseada no acompanhamento das redes, que pretende transformar em tecnologia todos os processos vitais e sociais, facilitando assim o gerenciamento da sociedade.

Manuel Castells levanta algumas definições de poder em relação às redes: poder de se conectar a uma rede; poder da rede; poder em rede; e poder para criar redes. Este último, uma das formas mais importantes de poder na atualidade.

É necessário se atentar ao fato de que cada rede corresponde a um material cultural ligado a processos de comunicação. Esses processos possibilitam poder de persuasão e adesão de ideias que favoreçam os interesses de seus programadores, ou seja, atuando em uma espécie de manipulação sobre os ideais preexistentes nos usuários.

Em processo de apocalipse ou de integração, não se sabe ao certo onde que o potencial das redes nas relações de poder poderá findar. Todavia, o surgimento de uma mídia multilateral como a internet potencializa a troca de material simbólico entre as pessoas e, como nova mídia, a reconfiguração das fronteiras de tempo e espaço. Provavelmente não viveremos em um mundo de emissores e receptores de mensagens, mas sim de criação e compartilhamento de conteúdo.

Note a mudança: carga informativa unilateralmente propagada, contra composições humanas a n-ésima potência de serem replicadas. Principalmente no país do futebol, onde a imprensa é protegida por uma lei de reserva de mercado e possui um oligopólio poderoso, surgiram manifestações populares massivas, produto de sua organização criativa e, principalmente, do amestrado festival de recrudescimento promovido pelo Estado, apoiado pela grande imprensa.

É importante reconhecer que estamos diante de um processo de rearranjo social em escala mundial. Disposta em uma teia de relações, as redes sociais combinam a pessoalidade humana com a reprodutibilidade técnica. Como resultado, ela, com a ajuda de robôs, seria a ferramenta ideal de dominação e controle, da mesma forma que também o principal vetor de escape da capacidade criativa da multidão.

Poderá ser um deles. Ou os dois. Ou nenhum.

Manipulação da mídia: visões e vieses

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   A mídia já surgiu fundamentada na ideia de controle massivo, inicialmente pouco perceptível, já que a abundância de informações diariamente veiculadas inebria, de forma quase lúdica, a mente dos receptores – termo posteriormente aplicado ao público da mídia. Com a revolução moderna da televisão e do ciberespaço, vistos não apenas como tópicos na “lista de meios de comunicação da história”, mas principalmente como inovações fundamentais e determinantes, a sociedade tem desenvolvido um novo comportamento diante do aparecimento de novas formas de interação social.

    Nessa ou dessa discussão é que cientistas políticos e outros teóricos impõem-se criticamente, estabelecendo teorias sobre a manipulação da informação pela mídia – não somente a de massas, mas igualmente aquela que fundamenta padrões elitistas e conceitos de erudição, delimitando a sociedade em classes. Daí é que se pode tirar a definição de poder simbólico e coercitivo. Mas, primeiramente, é necessário propor a separação conceitual de mídia entre primária, secundária e terciária.

   A mídia primária pode ser vista como a mais pura dentre as três. Ela é crua, ou seja, só possibilitaria a comunicação sem a interrupção processual das outras mídias. Logo, entre um emissor e um receptor, ambos precisariam estar nus e sem quaisquer objetos que lhes conferissem qualquer impressão relacionada a tudo que não fosse próprio do ato de comunicar-se. Pode-se observar que a hermenêutica – gestos contaminados de todas as formas – seria algo difícil de se evitar. Já a mídia secundária, se agrega à pessoa. Tudo que lhe conferir uma conclusão sobre determinada característica do outro pertence à essa mídia, roupas, maquiagem, tatuagem e até mesmo o silicone usado em cirurgias plásticas, por exemplo. Quanto à mídia terciária, esta se expressa por aparelhos que codifiquem e decodifiquem a informação – cinema, televisão e outros – e surge com o advento do telefone e da eletricidade.

Discorre-se sobre os tipos midiáticos para poder ampliar a compreensão a respeito do assunto. Sobre o tema, há nomes conhecidos no mundo da comunicação, a exemplo de Giovanni Sartori, Pierre Bourdieu e John B. Thompson. O cientista político Sartori introduziu o conceito de homo videns, aperfeiçoando a discussão. Segundo seu artigo Televisão e Pós-pensamento, o ser humano perdia-se de sua natureza simbólica ao ser reintroduzido – novamente porque retornava às origens primitivas da evolução humana – no mundo imagético que o cercava. Segundo excertos do texto, “a expressão animal symbolicum abrange todas as formas de vida cultural do homem. E a capacidade simbólica dos seres humanos se desdobra na linguagem, na capacidade de comunicar por meio de uma articulação de sons e signos “significantes”, providos de significado. Daí podemos dizer também que o homem é um animal que fala, um animal loquax constantemente em diálogo consigo mesmo (Cassirer), aliás pode-se dizer que esta é a característica que o distingue de qualquer outra espécie de ser vivo”. Com a televisão, a cultura do vídeo, a criança se afirma, transformando seres iletrados em educados por imagens. Isso é o que os privará de adotar o hábito da comunicação escrita, determinando-os pessoas impacientes, programadas e limitadas à informação “dada”, e não ao conhecimento construído e construtivo. “E na televisão o fato de ver predomina sobre o falar, no sentido que a voz ao vivo, ou de um locutor, é secundária, pois está em função da imagem e comenta a imagem. É por causa disso que o telespectador passa a ser mais um animal vidente do que um animal simbólico”.  

    Passamos de homo sapiens a homo videns – “adestrados” pelo vídeo. Conclui-se que a televisão é um instrumento “antropogenético” e que pensamos segundo conceitos que são entidades invisíveis e não expressam concretude alguma. 
“Na verdade a televisão produz imagens e apaga conceitos (…) e desse modo atrofia nossa capacidade de abstração e com ela nossa capacidade de compreender (…) É justamente este o processo que vem sendo atrofiado quando o homo sapiens é suplantado pelo homo videns”.

No capítulo Primazia da imagem de sua obra “Homo Videns” o cientista político italiano Giovanni  Sartori faz uma reflexão sobre os veículos de comunicação, desde o telégrafo a internet, e como eles  vêm afetando a sociedade pelas suas diferentes formas de transmissão de informação. Segundo Sartori, Gutenberg revolucionou os meios de comunicação, uma vez que após a descoberta das copiadoras, a escrita tornou-se algo acessível a todos. A partir dessa situação, no século XIX começou um grande avanço tecnológico, o pioneiro foi o jornal, logo depois o telégrafo, seguido do telefone, rádio, TV – que foi uma ruptura da comunicação pois agrega imagem e voz em um só espaço –  e por fim a internet, que revolucionou ainda mais pois além da imagem e da voz também possui a palavra.

   Nem todo progresso tecnológico pode ser visto como um progresso, afirma Sartori. O progresso é apenas aquilo que eleva o crescimento de uma civilização, por exemplo a TV em sentido progressiva pode ser classificada como progressista, ou seja, quando ela não tem como objetivo a quantidade de informações mas com sua qualidade, o mesmo vale para a internet. Porem a internet oferece diferentes produtos, mas mesmo assim acaba alienando muito mais que os outros meios, apesar do seu poder intelectual é utilizada em sua maioria apenas para a distração.  

    Em Bourdieu, fala-se na formação de habitus, e não com referência ao hábito da leitura, como acima, mas ao hábito visto como algo essencialmente negativo. Assim como Sartori, Bourdieu é um autor que possui perspectivas apocalípticas da cultura midiática. O habitus pressuporia um código de aceitação social. Aqui aparece o poder coercitivo do capital cultural, que não teria relações diretas com a economia mas sim com as formas de organização social em classes. A violência simbólica, inserida no capital cultural, legitima a dominação quando posta em prática por meio dos estilos de vida. Assim o poder da linguagem, expressando erudição, por exemplo, seria mais forte que a força no sentido literal. E é imprescindível ressaltar que Bourdieu engloba toda a problemática dentro do debate acerca da instituição social escolar. Pois é lá, com toda a sua formação previamente estabelecida para perpetuar essa sistematização que o poder “aos poucos e bons” e a submissão da maioria popular serão propagados.

    Thompson escreveu A mídia e a modernidade, com o intuito de discutir os reflexos avassaladores dos meios mais recentes na sociedade. Para o autor, a relação entre o emissor e o receptor, durante o processo de transmissão de informações, altera-se, criando novas formas de interação entre eles. Com isso, o envio unidirecional do emissor ao receptor se reformula num procedimento cíclico em que ambos interagem – principalmente com o nascimento do ciberespaço, uma mistura de uma realidade dialógica presencial com a de comunicação através da mídia de massas. Os três estudiosos expressam suas teorias de forma bem específica, relacionando-se entre si.

   Ao tratar das questões atreladas ao jornalismo e à manipulação da mídia, Bourdieu tem uma abordagem bastante pessimista. Por trás da aparência e dos traços mais evidentes do jornalismo, está uma estrutura que gera fenômenos concretos e visíveis, em uma tendência típica da corrente pós-estruturalista. Como é defendido pelo próprio autor, depois de definir o campo em questão – a somatória de atores, regras e forças que permite o funcionamento do que conhecemos por jornalismo – há uma intersecção entre o campo jornalístico, o político e o econômico. Essa estrutura faz com que, mesmo em uma reportagem que seja considerada “imparcial”, uma série de fatores ligados aos outros campos influencie a produção final do texto. Essa estrutura acaba por ser impeditiva e conta com a tendência jornalística de apresentar temáticas de maneira objetiva e simplista.

   Um exemplo de abordagem falha e simplista, que contou com uma verdadeira deformação da chamada “verdade factual”, foi o recente caso de corrupção envolvendo a Prefeitura de São Paulo. Um dos maiores jornais do Brasil, a Folha de S. Paulo noticiou que o “Auditor preso diz que ‘prefeito’ tinha ciência de tudo”. O “inconveniente” da publicação foi que, ao lado da manchete, estava a foto do atual prefeito da cidade, Fernando Haddad (PT), e não do ex-prefeito Gilberto Kassab (DEM), sendo este o real acusado no escândalo que envolveu quantias consideráveis da Prefeitura. O jornal leva em consideração uma pressão política e o favorecimento de determinado partido, além de, notavelmente, levar em conta o fator econômico – seja em matérias como essa, seja nos anúncios publicitários e sua influência no conteúdo veiculado.

   Já o conteúdo veiculado sobre os conflitos na Síria deixou clara a abordagem simplista que prevalece em muitos veículos da atualidade. Os grupos políticos foram reduzidos a infográficos e a questão não ultrapassava o básico e não retomava conflitos históricos ou uma bagagem política dos envolvidos. Quando à intervenção militar por parte dos EUA parecia iminente, os textos não mencionavam possíveis interesses dos países europeus e da potência estadunidense na região, nem abordava a questão de armas químicas e nucleares com a devida profundidade. Ao tratar da ação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, os jornais sequer discutiam a estrutura falha e antidemocrática do conselho, em que todos votam, mas pouquíssimos decidem, ou a falta de ação da ONU para impedir abusos no país. Multiplicaram-se matérias com cunho extremamente raso e superficial, dando destaque à imagem típica dos países árabes e de dinâmicas sociais na região.

Bourdieu, porém, salienta a hipótese de que a mídia não é capaz de dizer como se deve pensar, mas sobre o que se deve pensar. Não necessariamente (e, aliás, raramente) proporcionando uma expressão da opinião pública, mas formulando qual deve ser assunto de relevância nacional, de acordo com as necessidades de mercado. Ou, como Bourdieu nomeia, os “assuntos-ônibus”, que não chocam, não causam desconforto. E por isso tendem a homogeneizar, conformar, banalizar, despolitizar… Para o autor, essas “futilidades” preenchem os minutos importantes que deveriam ser destinados a um jornalismo crítico, ocultando assuntos realmente relevantes.

John B. Thompson também acredita que não é possível manipular pessoas, mas sim manipular a informação, já que a interpretação da mesma fica por parte do receptor. Thompson acredita que o desenvolvimento dos meios de comunicação é uma reelaboração do caráter simbólico da vida social, pois estes meios tratam da produção, do armazenamento e da circulação de significados para os indivíduos e sua relação social. E também usa a ideia de Bourdieu sobre os campos de interação, dentro dos quais os indivíduos se situam em diferentes posições, dependendo do tipo e da quantidade de recursos disponíveis. Essa posição é ligada ao poder que o indivíduo possui. Ao falar nas formas de poder, o autor as caracteriza em: poder político (associado ao governo, às instituições políticas, as leis); poder econômico (de mercado); poder coercitivo (que faz com que o indivíduo tome determinadas decisões, ou se submeta a situações específicas, como por exemplo, por meio da violência, da retórica, pelo poder militar, por instituições carcerárias e etc); e o poder simbólico (onde se encontra a mídia e as instituições culturais, como a escola, a Igreja, a universidade e etc.).

Sendo assim, a mídia é uma instituição paradigmática do poder simbólico – ou seja, proporciona bases privilegiadas ao exercício desse poder, sendo este, entre todos os poderes, o mais importante na visão de Thompson, pois influencia diretamente os outros três. A informação ou o conteúdo simbólico é transmitido do produtor para o receptor pelo meio técnico, responsável pela fixação, reprodução e armazenamento. E essa possibilidade de reprodução é uma das características que estão na base da exploração comercial dos meios de comunicação, da mercantilização das formas simbólicas. Mesmo com tantas teorias, que não incluem apenas os pensadores citados, a questão da mídia continua passível a discussões e plural.

 

Vida nua e sociedade de controle: constatações

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A vida humana é uma junção entre dois fatores de vivência: Zoé e Bios. Zoé é a vida biológica, animal, do homem, enquanto a Bios seria o modo de viver, a vida política. Esses dois conceitos estão entrelaçados, não sendo possível a existência de uma Zoé sem a Bios. Considerando esse pensamento, Giorgio Agamben cria um novo conceito, o de vida nua.
Como efeito de comparação, a vida nua não seria sinônimo de zoé, ou seja, de uma vivência biológica, mas pode ser classificada através da exclusão da bios, a vida política. Temos uma vida despolitizada, voltada à manutenção da carne, da vida biologicamente dita, pela produção e consumo. Esse homem, em um estágio despolitizado, que apenas deseja viver sem envolvimento político, é chamado por Agamben de Homo Sacer, conceito surgido na Roma Antiga e que é retomado pelo filósofo para explicitar a condição humana após o abandono do pensamento político.

Dentro desse novo “velho” cenário, a vida nua teria se incorporado à própria vida comunal, podendo dizer-se que ela estabeleceu uma modalidade biológica. Com isso, observa-se a redução das formas de vida ao fato da vida, e reflexos diários no homem: problematização das demais esferas da existência e a pseudociência do corpo e saúde humana.

Tal concepção de vida (segundo a “formulação da vida nua”) busca estabelecê-la dentro de um estado de exceção permanente. Nas próprias palavras de Agamben, “não só vivemos num estado de urgência que o poder tem interesse em manter e explorar, para justificar-se e intensificar-se, mas ao mesmo tempo a vida nua, que desde sempre foi o fundamento oculto da soberania, tornou-se norma, e é precisamente o que merece ser repensado”.

Frente a um cenário de diminuição da esfera da Bios, torna-se a figura do Homo Sacer, um ser ao mesmo tempo não sacrificável e matável. Além de um ser que pode ser morto sem que tal ato seja considerado um homicídio, sua vida sócial é um paradoxo: excluída da sociedade por ser não sacrificável, mas incluída nela por ser matável.
O filósofo e professor Michel Foucault abandona a análise do cidadão como cidadão de direitos naturais e foca seus estudos em modelos jurídico institucionais. Nesses modelos os que mais se destacam são: a definição da soberania e a teoria do Estado.
A soberania é caracterizada pelo sujeito natural que possui potências e capacidades rumo a unidade do poder que necessita ser fundamentada, retornando ao sujeito na legitimidade da sujeição na qual ele se insere e deve respeitar; do indivíduo natural ao soberano no momento do contrato, e do soberano ao individuo através da lei e da obediência.
Já sobre a teoria do Estado, como anarquista não declarado, acreditava obviamente em uma sociedade que não possuísse governo que aconteceria por meio de reformas – a primeira seria o fim da propriedade privada – em que seria necessário um Estado de intervenção e uma ditadura da ditadura. Desenvolve em seus estudos também que o Estado está ligado a outras instituições de formatação do cidadão, como a religião, a esfera de trabalho, a escola e a família. Além disso, Foucault se baseia na ideia de que o poder não é uma posição a ser conquistada, mas uma estratégia de lutas de classes.
O método de Foucault se assemelha muito ao de Nietzsche, uma vez que ambos acreditam que para que a sociedade seja adepta às forças positivas o individuo deve ser manso, produtor e consumidor. Sendo assim o maior problema do cidadão é a sua espera por um líder para lhe dizer o que é certo e o errado, porém segundo Nietzsche “naturalmente o homem consegue resolver seus problemas” não havendo necessidade de uma instituição superior que cuide dos mesmos.
É através de políticas assistencialistas do Estado que a vida nua é perpetuada, em um modelo que Foucault define como Biopolítica. Ela, a vida nua, seria o ponto de intersecção entre os dois modelos de poder estudados e criticados por Foucault – o jurídico-institucional e o biopolítico – como legitimação de técnicas políticas e jurídicas para uma formatação do homem como elemento de uma vivência nua, não sacrificável e descartável.

Tem se tornado algo cada vez mais comum a materialização do estado de exceção e criação de um espaço para a vida nua. A  vida é designada como vida nua pelo poder soberano – a democracia moderna mantém o homem controlado com a garantia de sua Zoé, e dedica-se a transformar a vida nua em uma vida qualificada, é uma tentativa de encontrar a Bios na Zoé. Uma “geometria variável”, como explica Deleuze, explicada em soluções numéricas não binárias – uma arquitetura que corresponde às garantias da manutenção biológica como instrumento principal de cidadania. Na modernidade, a associação da cidadania com o exercício da política passa a ser confundida com a preocupação pela vida; uma indistinção entre os planos da política e polícia, visto que a luta contra inimigos confunde-se a manutenção da vida enquanto tal biológica, a vida nua. Como uma estrutura, seus atores, enquanto seres biológicos, incitam um ciclo de retroalimentação dos mecanismos de controle, em torno da mesma manutenção dos princípios básicos de sobrevivência. Isso passa a ser o fundamento do totalitarismo: vida como valor biológico e política como saúde da vida, sendo o animal laborans, aquele que objetiva sua vida sem preocupação com a coletividade, considerado como cidadão.

Portanto, quando se defende a sacralidade da vida, mas condena-se o poder soberano, cria-se uma contradição, porque este último é o que garante a validade da primeira. Segundo Pelbart, em Vida Capital, “o direito à vida, nesse contexto, é a contraparte de um poder que a ameaça de morte”. A sacralidade, atualmente, confunde-se com a biologia do ser, condicionando o ser a tornar-se homines sacri (sacrificável).

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48: a luta dos palestinos pela manutenção da vida

Ao analisar o conceito de vida nua e demais aspectos relacionados, é possível trazer exemplos contemporâneos. Um dos mais alarmantes é o da situação dos palestinos, desprovidos de cidadania reconhecida, ou, no caso de alguns dos chamados “palestinos de 48”, que permaneceram no que é considerado atualmente como território israelense, mas como cidadãos de segunda classe. O julgo que se baseia no “ethos israelense”, e que passa o discurso de um cidadão de Israel tão somente judeu e favorável ao militarismo gritante do país, também reforça a ideia de homo sacer vinculada ao palestino.
A ideia de cidadania é tirada desses palestinos à base da imposição de um Estado judeu ao qual eles não se incluem. Organizações, coletivos e colaborativas são sistematicamente eliminados, seja em campos de refugiados, seja em vilarejos agrícolas no Vale do Rio Jordão, seja também nas cidades mistas, como Ramallah, em que o sistema legal privilegia israelenses de maneira nítida e cristalina. Para muitos, a única solução é abdicar da vivência política e viver em prol da manutenção da vida em suas comunidades, que sobrevivem com dificuldade, em atividades mal remuneradas. Há, é claro, uma resistência por parte de uma parcela, mas a pressão externa de um Estado que foi imposto e constituído rapidamente e com apoio de diversas potências, reforça a ideia de um homem que deve garantir a própria vida ao custo de um sacrifício da vida política.
Não bastasse tal dominação e opressão, os palestinos ainda lidam com um processo intenso de judaização de diversas áreas e comunidades. As crianças, a partir do momento em que vivem em território tido por israelense ou que sofre forte influência e pressão, não mais aprendem árabe, e as placas das cidades e arredores não mais contam com o idioma, assim como não há preservação de boa parte de eventos e tradições vinculadas aos palestinos. Forçando, desde a infância, o indivíduo a abdicar de sua identidade e de seu passado histórico, sua memória coletiva, o opressor elimina também um traço essencial do oprimido. Para última parte da análise do caso, está também a impunidade dos casos de abuso contra palestinos e a “legitimidade” de agir contra tais pessoas deliberadamente – desde atirar pedras nas crianças em seu caminho para a escola até demolir casas e prender crianças e torturá-las, para impedir que os pais protestem contra esse esquema de dominação.

Os mecanismos de dominação e a sociedade de controle

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As sociedades disciplinares atingem seu apogeu no início do século XX e baseiam-se na organização dos grandes meios de confinamento. O projeto ideal desses meios está em concentrar, distribuir no espaço, ordenar no tempo e compor no espaço-tempo uma força produtiva cujo efeito deve ser superior à soma das forças elementares. Foi responsável por “fabricar” o indivíduo como produtor-consumidor. Essa sociedade disciplinar, entretanto, está sendo substituída pelas sociedades de controle, por conta de uma crise generalizada dos meios de confinamento.

Como parte da sobrevivência da metrópole, o indivíduo busca o anonimato como forma de proteção. Não há grandes relações coletivas, e o Estado necessita buscar uma forma de identificação para cada indivíduo, a qual se dá pelo objetivo comum a todos: a busca da vida. Assim, o Estado compromete-se a propiciar à população a longevidade, a saúde pública, o lazer e etc. Trata-se de uma política de potencialização da vida, da sociedade biopolítica, em que o próprio controlado é colaborador do controlador. Por meio das leis, o Estado tenta construir uma situação de igualdade, que por sua vez tende a diminuir as liberdades individuais.

Segundo Foucault, a disciplina é interiorizada, os valores são introjetados. Essa disciplina é exercida fundamentalmente por três meios globais absolutos: o medo, o julgamento e a destruição. Logo, com o colapso das antigas instituições imperialistas, os dispositivos disciplinares tornaram-se menos limitados. As instituições sociais modernas produzem indivíduos sociais muito mais móveis e flexíveis que antes. Essa transição para a sociedade de controle envolve uma subjetividade que não está fixada na individualidade. O indivíduo não pertence a nenhuma identidade e pertence a todas. Mesmo fora do seu local de trabalho, continua a ser intensamente governado pela lógica disciplinar.

As sociedades de controle estão em variação contínua. Não há recomeço, como nas sociedades disciplinares, mas sim a coexistência de cada confinamento – a formação, a empresa, o serviço- em uma mesma modulação. O essencial para a sociedade de controle é a cifra, o dinheiro. Sua posse promove o acesso à informação. E sua ausência, à rejeição.

As multidões tornam-se forma do cenário comum à Modernidade. Esse ambiente cria uma atmosfera em que as antigas massas, agora individualizadas, parecem impedir maior interação entre as pessoas. Reféns de uma lógica que busca a longevidade e zela pela vida individual, sem que haja uma preocupação com a parte coletiva ou organização, os indivíduos passam a reproduzir essa mesma lógica em suas esferas privadas, além da esfera pública. Como testemunhou Baudelaire, no clássico “As Flores do Mal”, ao se fascinar pelas multidões de Paris e por seus “heróis” miseráveis, a exemplo das prostitutas e dos mendigos.

A ideia de uma felicidade individual – e da necessidade, ou obrigatoriedade dessa felicidade previamente estipulada, conceituada e propagada – supera quaisquer esforços para colocar em destaque um interesse coletivo. Aos poucos, esvaiu-se de real significado a ideia de que há um interesse comum. Em um de seus textos mais famosos e polêmicos, “Contra os Direitos Humanos”, por exemplo, Slavoj Zizek afirma que há um fortalecimento de uma vida destinada à obtenção de prazer, em detrimento da dedicação a uma causa coletiva ou a alguma causa ideológica maior. É isso que permite a desarticulação de movimentos sociais, sua fragilização, o desfalque de suas lideranças, uma maior rendição das massas ao que parece ser uma sociedade pacífica, em que se pressupõe que o Estado zele pela manutenção da vida e pelo bem-estar social.

Nas duas últimas décadas, com o intenso fluxo de trocas comerciais e culturais, houve um aumento da dependência e fragilidade da política dos estados, em prol da liberdade proporcionada por esse fenômeno que transforma a hegemonia estatal para algo mais limitado, que deve considerar outros agentes, como organizações supranacionais e movimentos sociais. Apesar disso, e até como forma de combate, o Estado cria formas de controle social.

Um exemplo disso pode ser verificado no filme “A Onda” (2009), de Dennis Gansel. No longa metragem, o professor Rainer Wenger é colocado para lecionar a disciplina de autocracia numa escola alemã. Para exemplificar esse sistema político, o educador opta por simular um governo fascista com seus alunos, com direito a cumprimentos, uniformes e outros elementos típicos durante o período em que a Alemanha viveu em tal regime. Porém, o que era para ser levado como aprendizado sobre o sistema de governo, começa a sair de controle à medida que seu contexto da sala de aula ultrapassa os limites pedagógicos, alcançando o mundo real.

O que quer vender são serviços, e o que quer comprar são ações

Deve-se levar em consideração que essa sociedade opera dentro do capitalismo de sobre-produção, dirigido para o mercado. Como afirma Deleuze, “o que quer vender são serviços, e o que quer comprar são ações”. As conquistas do mercado se fazem pela tomada de controle, e não mais pela disciplina. Assim, o marketing é um instrumento de controle social, que é contínuo, ilimitado, de rotação rápida e de curto prazo ao passo que a disciplina era de longa duração, infinita e descontínua. Nesta sociedade do consumo, o atual confinamento do homem se faz pelo endividamento. Nesta sociedade, o homem é refém de uma liberdade pressuposta e falsa, graças aos mecanismos de um controle aperfeiçoado durante décadas.

Karl Marx e a dominação: os mecanismos do capital

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É extremamente comum, hoje em dia, principalmente às últimas gerações, que tem uma visão simultaneamente ideologizada pelo capitalismo imperante e enfraquecida pela falta de observação analítica do real funcionamento desse sistema, enxergar o capital, o lucro, como um direito daquele que merecidamente trabalhou para adquiri-lo. É comum até mesmo interpretar o dinheiro não como um intermédio de troca de produtos, segundo sua concepção originária, mas como um próprio bem adquirido e que garanta uma determinada riqueza (palavra avaliada aqui como uma preponderância de um indivíduo sobre o outro, em termos econômico-sociais; marca da desigualdade social), assim como certo status conferido pelo sistema atual.
O filosofo alemão Karl Marx foi o pioneiro a discutir sobre esses valores da sociedade capitalista. Graças aos mecanismos próprios do sistema, ficam implícitas as diversas formas de dominação do capitalismo burguês sobre a maioria operária (proletariado). Assim, o sistema capitalista resume-se pela relação de dominação daqueles que possuem meios de produção sobre aqueles que não têm. Os mecanismos de dominação capitalista intensificaram-se a partir da Primeira Revolução Industrial, com o início da produção em larga escala. Eles vão desde a exploração do trabalho, a extração da mais-valia até a acumulação gerada pelo consumismo individualista. A exploração da classe dominante sobre a dominada ultrapassa a lógica da troca e entrega-se à lógica do lucro – o proletário, proveniente de uma classe historicamente dominada, vende sua força de trabalho (único bem que possui) para o capitalista, detentor dos meios de produção. O modo de produção força que o proletariado aceite uma situação degradante em que sua força de trabalho não corresponde diretamente a seu retorno no que se convencionou por salário – há ainda uma mais-valia, a força de trabalho não paga pelo capitalista, que permite uma exploração cada vez maior e mais forte. Concomitantemente, seu trabalho para a ser cada vez mais especializado, o proletário perde a noção do processo como um todo e aliena-se da produção e do produto, tal qual retratado em Tempos Modernos, de Charles Chaplin – o homem desumaniza-se em prol do capital e da dominação de uma classe que extrai daquele que nada mais tem senão sua prole o máximo, sem que haja retorno ou possibilidade que os poderes de tais classes se equiparem sem a revolução.

Outra forma de dominação é feita por parte do Estado. Já que o proletário vê-se dependente do salário e há concorrência que pode tirá-lo do pouco que tem, graças a uma parcela da população mantida desempregada e à margem (parcela sempre necessária para garantir o sistema tal como é), é fácil para o governo reprimir qualquer reação aos abusos. A miséria aumenta à medida que o lucro também aumenta, e para sair da miséria que o próprio regime capitalista impõe, o indivíduo vê-se obrigado a trabalhar ainda mais, sem sair deste ciclo. Há ainda uma valoração dada ao “trabalhador”, ao trabalho que glorifica, justificando os esforços desumanos de quem luta para sobreviver em um sistema excludente por definição. Neste momento o medo do desemprego é suficiente para acalmar uma possível revolta, e o capitalismo promete segurança enquanto o proletário necessita do próprio sustento. O poder político, então, é um meio pelo qual a classe dominante mantém seu domínio e exploração.

Marx já dizia que era preciso entender matematicamente a situação do capital, explicitar como se organiza, conhecer o sistema capitalista para modificá-lo e não apelar para teorias utópicas (assim como os ideais do socialismo utópico), para que assim e só assim pudesse haver alguma modificação no sistema. Segundo o pensador, “não é a consciência dos homens que determina o ser social. Ao contrário, é o ser social que determina a consciência”.

Em suma, levando em consideração as discussões feitas por Karl Marx, a maior dominação é a que aliena o homem e o torna dependente do sistema, garantida pela ideologia propagada por diversos recursos do sistema, entre Estado, escola, prisões, hospitais e até mesmo a estrutura familiar – estudados mais a fundo por Michel Foucault. O modo de produção influencia o desenvolvimento da vida social, política e intelectual. A consciência do homem será determinada por sua existência social, e o trabalho passa a ser visto como modo de existência, um meio de viver e fazê-lo parte da sociedade. A noção de trabalho torna-se elemento essencial para uma definição do homem, e não uma expressão, graças à ideologia e à alienação. Segundo Raymond Aron, “interpretada sociologicamente, a alienação é uma crítica ao mesmo tempo histórica, moral e sociológica da ordem social da época. No regime capitalista os homens são alienados,  eles mesmos se perderam na coletividade, e a raiz de todas as alienações é a alienação econômica.”  De fato, o indivíduo perde-se no que é propagado às massas e passa a ser dominado pelo capital graças a esse tipo de mecanismo. Dominado, controlado, alienado.

Hobbes, Rousseau e Locke: as faces do contratualismo

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         As teorias contratualistas, preocupadas em estabelecer uma origem para o Estado e sua estrutura como um todo, encontram diversas abordagens durante o século XVII e XVIII e, entre elas, os nomes de Hobbes, Rousseau e Locke. A relação entre os principais filósofos do contratualismo – que tem como ideia principal a elaboração de um “contrato social”, que organiza as relações humanas – parece manter-se semelhante apenas em suas linhas principais.

         Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau não somente estabeleceram pontos de vista distintos sobre a forma de Estado e da sociedade, como também serviram de base teórica a diferentes movimentos políticos da Era Moderna.

…se os homens têm verdades inatas impressas originalmente, e antes do uso da razão, permanecendo delas ignorantes até atingirem o uso da razão, consiste em afirmar que os homens, ao mesmo tempo, as conhecem e não as conhecem¹

         Para Hobbes o homem em seu estado de natureza é belicoso e há em sua natureza uma tendência à destruição, levando a um estado de guerra de todos contra todos, como deixa claro na expressão “Homo homini lupus”. A busca constante da honra e da glória define também uma característica comum a todos. Essa característica provém do estado natural e igualitário, que desperta um instinto competitivo e a desconfiança entre os indivíduos. Locke traz consigo o empirismo como base de seu pensamento, representado pela expressão latina “tabula rasa”, uma crítica à doutrina de Platão e Descartes de que determinadas ideias não dependem da experiência humana, contrariando a ideia de verdades inatas.  Para Locke, é como se a mente humana fosse um papel em branco que adquire experiência por meio da vivência e não há um “conhecimento padrão” presente na natureza humana antes da experiência, do que é empírico. A ideia de Rousseau quanto ao estado natural é de que o homem é, a priori, bom, porém a sociedade o corrompe. A partir desse pensamento, Rousseau tem uma ideia pessimista: a de que a racionalidade humana é maléfica, é a origem dos defeitos humanos.

O homem nasce livre, mas por toda parte encontra-se acorrentado²

         No tocante à propriedade privada, os grandes nomes do contratualismo divergem entre si. Hobbes nega o direito natural à propriedade. Locke pensa o contrário: a propriedade é um direito natural do homem e a primeira propriedade é o próprio corpo, como afirma no capítulo V do Segundo Tratado.  Já Rousseau tem uma visão totalmente negativa sobre a propriedade privada e estabelece como origem das desigualdades o seu surgimento, a partir do momento em que toma forma a expressão “isto é meu”, premissa da posse, da dominação, que traz também a degeneração e destruição do homem.

cada homem tem uma propriedade em sua própria pessoa³

          A fim de garantir os direitos naturais, é necessária a mediação através de um contrato social para que haja uma sociedade civil igualitária e pacífica. Para Hobbes, o contrato social funciona como um pacto de submissão: a sociedade transfere o poder a um terceiro “homem ou assembleia”, trocando voluntariamente sua liberdade pela segurança do Estado-Leviatã. O contrato social funda a sociedade e o Estado, o soberano criado pelo contrato, legisla sobre a vida e a morte, tem poder ilimitado – sendo que ninguém pode julgá-lo, mesmo que adquira características de uma tirania. Sua obrigação é garantir a vida, o fim da guerra de todos contra todos, e é para obter isso, tamanha garantia dada pelo governante, que os homens se submetem a essa espécie de “mediador”. Na visão de Locke, a propriedade privada já existe no estado de natureza, que antecede o contrato social e, deste modo, a função do governo é a de preservar a propriedade. Assim como Hobbes, Locke afirma que, ao assinar o contrato, o homem estaria renunciando a parte de suas liberdades em prol do seu direito de defesa e de justiça. A diferença entre a ideia dos dois é que, neste caso, o contrato social funciona como um pacto de consentimento: os homens concordam livremente em formar a sociedade civil para preservar e consolidar ainda mais os direitos do Estado de Natureza, melhor protegidos e amparados pelas leis e pela força de um corpo político e unitário. Todos concordam em aderir ao estado civil e todos devem escolher a forma de governo.

         Sendo Rousseau o primeiro contratualista revolucionário, ao contrário de Hobbes e Locke, ele não enxerga dependência do povo com o Estado. Para ele, o contrato social não serve apenas como mediação entre o estado de natureza e o estado civil, mas sim como o fim da liberdade natural. Para que esse contrato seja legítimo e haja liberdade civil, é necessário criar condições de igualdade entre as partes. Essas condições dependem da alienação dos direitos: cada um deve doar-se à comunidade, ao coletivo. Ao contrário do que acredita Locke, segundo o qual todos os homens são iguais e podem agir livres, desde que não atrapalhem o outro a fazer o mesmo, para Rousseau o indivíduo é menor que a sociedade e é preciso priorizar a vontade geral, e não individual, para que haja igualdade.

         Hobbes defende que a presença de um soberano que governe com poder absoluto é fundamental, já que ele, apesar de ter sido criado pelo contrato do povo, nada tinha a ver com a sua assinatura. Sendo assim ninguém poderia julgá-lo. Hobbes fundamenta suas ideais em seu livro “Leviatã”, uma apologia ao Estado todo poderoso, que deve monopolizar toda a comunidade, ser fiador da vida, da paz e da segurança. Para que o governo seja eficaz, é necessário usar o medo da morte como forma de controle social: serve como modo de punição a ideia de preservação da vida faz a sociedade se controlar.

         Para Locke, o governo é misto: Rei (monarquia), Câmara dos Lordes (aristocracia), Câmara dos Comuns (democracia). O Legislativo controla o Executivo e a sociedade controla o governo, independentemente de sua forma. A sociedade tem direito à resistência contra o governo, se este não atender a suas necessidades, pois será considerado tirano. Se nada adiantar, o povo pode recorrer à força rebelde para depor o governo (Estado liberal).

         Rousseau, por sua vez, afirma que, em estado de igualdade, o povo pode deliberar suas próprias leis. Suas ideias se aproximam um pouco das de Locke, quanto às decisões de leis e manutenção do poder. Entretanto, por haver princípios democráticos em seu pensamento, difere de Locke quanto ao radicalismo que apresenta em beneficio do povo. Sua teoria defende a impossibilidade da representação política, e a necessidade de que o governo deve submeta-se ao seu povo. Segundo o teórico, “o povo é o governo”, verdadeiro soberano, que ajuda a manter esse Estado de igualdade.

         Cada um dos autores cria um contrato que dá aos homens direitos e deveres, estabelecendo um governo que torna possível a vida em sociedade e a preservação da mesma. Apesar de diferirem em alguns aspectos, a exemplo de quais são os direitos básicos do homem, os autores possuem pontos em comum, como a finalidade do governo, que seria, basicamente, a proteção do ser humano. A preocupação em estabelecer quais as condições na ausência de qualquer tipo de ordem social é o que guia tais teóricos a levantarem tais hipóteses e teorias.

¹: Ensaio sobre o Entendimento Humano, de John Locke. Editora Martins Fontes.

²: Do contrato social e outros ensaios, de Jean-Jacques Rousseau. Editora Cultrix.

³: Dois tratados sobre o governo, de John Locke. Editora Martins Fontes.

Texto por Carolina Moreira, Isabella Menon, Luana Maria, Lucas Goldstein, Natália Folloni e Priscila Bellini.

Hitler: a ausência de virtude no ego

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Depois da Primeira Guerra Mundial e da Grande Depressão em 1929, vários países europeus se encontravam destruídos. A Alemanha derrotada, agravada pelos produtos da Paz de Versalhes – entre eles a perda de territórios e indenizações de bilhões de marcos à Entente -, se deparou com uma economia arruinada pela hiperinflação e com taxas altíssimas de desemprego. Nesse panorama de aparente descontrole, Adolf Hitler, chefe do partido nazista alemão, nunca teve tanto a seu favor: a chamada “fortuna” estava ali, disponível, à espera se uma iniciativa desse líder de origem austríaca e de seu governo de cunho autoritário. Esse mesmo governo pareceu ser a esperança da nação.

Hitler mostrou-se um governante virtuoso, ao implementar medidas que se tornaram bem sucedidas: diminuiu a taxa de desemprego de 6 milhões para 900 mil pessoas, aumentou em 112% o produto interno bruto nacional, dobrou a renda per capita, e elevou o lucro das empresas de 175 milhões de marcos para 6 bilhões. Tendo grande poder de persuasão por meio de discursos que atraíam milhões, Hitler conseguiu, representando a mistura de terror e empatia maquiavélicos (em sua real acepção do termo), manter o povo a seu lado.

O Führer, porém, errou. E não apenas uma vez. Mas o principal erro de Hitler foi confiar demais em suas atitudes virtuosas e supor uma fortuna que em determinado momento não existiu. A começar, seu antissemitismo expulsou cérebros geniais da Alemanha que poderiam ter sido úteis a ele, e não aos inimigos do regime: um deles, o judeu Albert Einstein, era proibido de ocupar qualquer cargo oficial, além de seus livros encontrarem-se na lista de queima e de ser um possível alvo de assassinato caso continuasse na Alemanha. Hitler seguia táticas intuitivas, indo contra conselhos de especialistas militares e, inicialmente, obteve vitórias maciças, indicando certo bom uso da fortuna. Acabou por deixar de lado suas decisões pautadas na virtude, culminando em desgraças a si próprio. Desde que se tornara chanceler e do início da Segunda Guerra, o Führer conseguira inúmeras vitórias, mas não ser um líder virtuoso em diversos momentos, ocasionou sua queda gradual.

O ápice foi a batalha de Stalingrado, em que sacrificou uma série de atitudes bem sucedidas e estabeleceu o caráter não-virtuoso do líder nazista. Em 1941, Hitler rompeu um pacto bilateral de não-agressão, assinado dois anos antes, ao invadir o território soviético. Além de ter (somente) lhe rendido um inimigo de caráter continental, o fator climático – que já um século antes ocasionara a queda do império napoleônico -,  foi fatal ao ser desconsiderado. Atacar o território em pleno inverno russo, direcionando tropas despreparadas contra outras já habituadas a um cenário extremamente desfavorável, foi um dos erros de Hitler. O inverno russo serviu como ponto de virada da frente leste aliada. Hitler não conseguia recuar e tampouco considerou as notificações de generais de suas tropas, que advertiam sobre a falta de condições que os soldados enfrentavam. A derrota tornou-se previsível. O Führer diversas vezes deixou de atender aos pedidos de alimentos e munição que chegavam de seu exército, e ignorou ameaças de desistência: quando o general Von Paulus reconhece que a batalha está perdida desobedece às ordens do Führer – de lutar até o último homem – e acaba se rendendo.

Hitler acreditava que seu patriotismo cego seria o mesmo de seus soldados, e suficiente para mantê-los em combate, esquecendo-se de forma muito tola as necessidades vitais. Hitler sentiu-se seguro demais, deixou-se guiar de forma ansiosa, cega, de pouca percepção ao que realmente necessitava foco. Tudo mera consequência de sua confiança e ambição desmedidas. O ego de Hitler fez com que sua virtude, tão presente e preciosa durante todos os anos da imposição de seu poder, se tornasse escassa e posteriormente nula, culminando em seu suicídio. Este ato foi a prova de que sua personalidade não permitiria a ele habitar um mundo em que suas regras e condições não predominassem. O fracasso e a ausência de virtude foram resultados do extremo de seu ego.

Texto por Carolina Costa, Isabella Menon, Luana Maria, Lucas Rubio, Natália Folloni e Priscila Bellini.