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A vida humana é uma junção entre dois fatores de vivência: Zoé e Bios. Zoé é a vida biológica, animal, do homem, enquanto a Bios seria o modo de viver, a vida política. Esses dois conceitos estão entrelaçados, não sendo possível a existência de uma Zoé sem a Bios. Considerando esse pensamento, Giorgio Agamben cria um novo conceito, o de vida nua.
Como efeito de comparação, a vida nua não seria sinônimo de zoé, ou seja, de uma vivência biológica, mas pode ser classificada através da exclusão da bios, a vida política. Temos uma vida despolitizada, voltada à manutenção da carne, da vida biologicamente dita, pela produção e consumo. Esse homem, em um estágio despolitizado, que apenas deseja viver sem envolvimento político, é chamado por Agamben de Homo Sacer, conceito surgido na Roma Antiga e que é retomado pelo filósofo para explicitar a condição humana após o abandono do pensamento político.

Dentro desse novo “velho” cenário, a vida nua teria se incorporado à própria vida comunal, podendo dizer-se que ela estabeleceu uma modalidade biológica. Com isso, observa-se a redução das formas de vida ao fato da vida, e reflexos diários no homem: problematização das demais esferas da existência e a pseudociência do corpo e saúde humana.

Tal concepção de vida (segundo a “formulação da vida nua”) busca estabelecê-la dentro de um estado de exceção permanente. Nas próprias palavras de Agamben, “não só vivemos num estado de urgência que o poder tem interesse em manter e explorar, para justificar-se e intensificar-se, mas ao mesmo tempo a vida nua, que desde sempre foi o fundamento oculto da soberania, tornou-se norma, e é precisamente o que merece ser repensado”.

Frente a um cenário de diminuição da esfera da Bios, torna-se a figura do Homo Sacer, um ser ao mesmo tempo não sacrificável e matável. Além de um ser que pode ser morto sem que tal ato seja considerado um homicídio, sua vida sócial é um paradoxo: excluída da sociedade por ser não sacrificável, mas incluída nela por ser matável.
O filósofo e professor Michel Foucault abandona a análise do cidadão como cidadão de direitos naturais e foca seus estudos em modelos jurídico institucionais. Nesses modelos os que mais se destacam são: a definição da soberania e a teoria do Estado.
A soberania é caracterizada pelo sujeito natural que possui potências e capacidades rumo a unidade do poder que necessita ser fundamentada, retornando ao sujeito na legitimidade da sujeição na qual ele se insere e deve respeitar; do indivíduo natural ao soberano no momento do contrato, e do soberano ao individuo através da lei e da obediência.
Já sobre a teoria do Estado, como anarquista não declarado, acreditava obviamente em uma sociedade que não possuísse governo que aconteceria por meio de reformas – a primeira seria o fim da propriedade privada – em que seria necessário um Estado de intervenção e uma ditadura da ditadura. Desenvolve em seus estudos também que o Estado está ligado a outras instituições de formatação do cidadão, como a religião, a esfera de trabalho, a escola e a família. Além disso, Foucault se baseia na ideia de que o poder não é uma posição a ser conquistada, mas uma estratégia de lutas de classes.
O método de Foucault se assemelha muito ao de Nietzsche, uma vez que ambos acreditam que para que a sociedade seja adepta às forças positivas o individuo deve ser manso, produtor e consumidor. Sendo assim o maior problema do cidadão é a sua espera por um líder para lhe dizer o que é certo e o errado, porém segundo Nietzsche “naturalmente o homem consegue resolver seus problemas” não havendo necessidade de uma instituição superior que cuide dos mesmos.
É através de políticas assistencialistas do Estado que a vida nua é perpetuada, em um modelo que Foucault define como Biopolítica. Ela, a vida nua, seria o ponto de intersecção entre os dois modelos de poder estudados e criticados por Foucault – o jurídico-institucional e o biopolítico – como legitimação de técnicas políticas e jurídicas para uma formatação do homem como elemento de uma vivência nua, não sacrificável e descartável.

Tem se tornado algo cada vez mais comum a materialização do estado de exceção e criação de um espaço para a vida nua. A  vida é designada como vida nua pelo poder soberano – a democracia moderna mantém o homem controlado com a garantia de sua Zoé, e dedica-se a transformar a vida nua em uma vida qualificada, é uma tentativa de encontrar a Bios na Zoé. Uma “geometria variável”, como explica Deleuze, explicada em soluções numéricas não binárias – uma arquitetura que corresponde às garantias da manutenção biológica como instrumento principal de cidadania. Na modernidade, a associação da cidadania com o exercício da política passa a ser confundida com a preocupação pela vida; uma indistinção entre os planos da política e polícia, visto que a luta contra inimigos confunde-se a manutenção da vida enquanto tal biológica, a vida nua. Como uma estrutura, seus atores, enquanto seres biológicos, incitam um ciclo de retroalimentação dos mecanismos de controle, em torno da mesma manutenção dos princípios básicos de sobrevivência. Isso passa a ser o fundamento do totalitarismo: vida como valor biológico e política como saúde da vida, sendo o animal laborans, aquele que objetiva sua vida sem preocupação com a coletividade, considerado como cidadão.

Portanto, quando se defende a sacralidade da vida, mas condena-se o poder soberano, cria-se uma contradição, porque este último é o que garante a validade da primeira. Segundo Pelbart, em Vida Capital, “o direito à vida, nesse contexto, é a contraparte de um poder que a ameaça de morte”. A sacralidade, atualmente, confunde-se com a biologia do ser, condicionando o ser a tornar-se homines sacri (sacrificável).

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48: a luta dos palestinos pela manutenção da vida

Ao analisar o conceito de vida nua e demais aspectos relacionados, é possível trazer exemplos contemporâneos. Um dos mais alarmantes é o da situação dos palestinos, desprovidos de cidadania reconhecida, ou, no caso de alguns dos chamados “palestinos de 48”, que permaneceram no que é considerado atualmente como território israelense, mas como cidadãos de segunda classe. O julgo que se baseia no “ethos israelense”, e que passa o discurso de um cidadão de Israel tão somente judeu e favorável ao militarismo gritante do país, também reforça a ideia de homo sacer vinculada ao palestino.
A ideia de cidadania é tirada desses palestinos à base da imposição de um Estado judeu ao qual eles não se incluem. Organizações, coletivos e colaborativas são sistematicamente eliminados, seja em campos de refugiados, seja em vilarejos agrícolas no Vale do Rio Jordão, seja também nas cidades mistas, como Ramallah, em que o sistema legal privilegia israelenses de maneira nítida e cristalina. Para muitos, a única solução é abdicar da vivência política e viver em prol da manutenção da vida em suas comunidades, que sobrevivem com dificuldade, em atividades mal remuneradas. Há, é claro, uma resistência por parte de uma parcela, mas a pressão externa de um Estado que foi imposto e constituído rapidamente e com apoio de diversas potências, reforça a ideia de um homem que deve garantir a própria vida ao custo de um sacrifício da vida política.
Não bastasse tal dominação e opressão, os palestinos ainda lidam com um processo intenso de judaização de diversas áreas e comunidades. As crianças, a partir do momento em que vivem em território tido por israelense ou que sofre forte influência e pressão, não mais aprendem árabe, e as placas das cidades e arredores não mais contam com o idioma, assim como não há preservação de boa parte de eventos e tradições vinculadas aos palestinos. Forçando, desde a infância, o indivíduo a abdicar de sua identidade e de seu passado histórico, sua memória coletiva, o opressor elimina também um traço essencial do oprimido. Para última parte da análise do caso, está também a impunidade dos casos de abuso contra palestinos e a “legitimidade” de agir contra tais pessoas deliberadamente – desde atirar pedras nas crianças em seu caminho para a escola até demolir casas e prender crianças e torturá-las, para impedir que os pais protestem contra esse esquema de dominação.