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   A mídia já surgiu fundamentada na ideia de controle massivo, inicialmente pouco perceptível, já que a abundância de informações diariamente veiculadas inebria, de forma quase lúdica, a mente dos receptores – termo posteriormente aplicado ao público da mídia. Com a revolução moderna da televisão e do ciberespaço, vistos não apenas como tópicos na “lista de meios de comunicação da história”, mas principalmente como inovações fundamentais e determinantes, a sociedade tem desenvolvido um novo comportamento diante do aparecimento de novas formas de interação social.

    Nessa ou dessa discussão é que cientistas políticos e outros teóricos impõem-se criticamente, estabelecendo teorias sobre a manipulação da informação pela mídia – não somente a de massas, mas igualmente aquela que fundamenta padrões elitistas e conceitos de erudição, delimitando a sociedade em classes. Daí é que se pode tirar a definição de poder simbólico e coercitivo. Mas, primeiramente, é necessário propor a separação conceitual de mídia entre primária, secundária e terciária.

   A mídia primária pode ser vista como a mais pura dentre as três. Ela é crua, ou seja, só possibilitaria a comunicação sem a interrupção processual das outras mídias. Logo, entre um emissor e um receptor, ambos precisariam estar nus e sem quaisquer objetos que lhes conferissem qualquer impressão relacionada a tudo que não fosse próprio do ato de comunicar-se. Pode-se observar que a hermenêutica – gestos contaminados de todas as formas – seria algo difícil de se evitar. Já a mídia secundária, se agrega à pessoa. Tudo que lhe conferir uma conclusão sobre determinada característica do outro pertence à essa mídia, roupas, maquiagem, tatuagem e até mesmo o silicone usado em cirurgias plásticas, por exemplo. Quanto à mídia terciária, esta se expressa por aparelhos que codifiquem e decodifiquem a informação – cinema, televisão e outros – e surge com o advento do telefone e da eletricidade.

Discorre-se sobre os tipos midiáticos para poder ampliar a compreensão a respeito do assunto. Sobre o tema, há nomes conhecidos no mundo da comunicação, a exemplo de Giovanni Sartori, Pierre Bourdieu e John B. Thompson. O cientista político Sartori introduziu o conceito de homo videns, aperfeiçoando a discussão. Segundo seu artigo Televisão e Pós-pensamento, o ser humano perdia-se de sua natureza simbólica ao ser reintroduzido – novamente porque retornava às origens primitivas da evolução humana – no mundo imagético que o cercava. Segundo excertos do texto, “a expressão animal symbolicum abrange todas as formas de vida cultural do homem. E a capacidade simbólica dos seres humanos se desdobra na linguagem, na capacidade de comunicar por meio de uma articulação de sons e signos “significantes”, providos de significado. Daí podemos dizer também que o homem é um animal que fala, um animal loquax constantemente em diálogo consigo mesmo (Cassirer), aliás pode-se dizer que esta é a característica que o distingue de qualquer outra espécie de ser vivo”. Com a televisão, a cultura do vídeo, a criança se afirma, transformando seres iletrados em educados por imagens. Isso é o que os privará de adotar o hábito da comunicação escrita, determinando-os pessoas impacientes, programadas e limitadas à informação “dada”, e não ao conhecimento construído e construtivo. “E na televisão o fato de ver predomina sobre o falar, no sentido que a voz ao vivo, ou de um locutor, é secundária, pois está em função da imagem e comenta a imagem. É por causa disso que o telespectador passa a ser mais um animal vidente do que um animal simbólico”.  

    Passamos de homo sapiens a homo videns – “adestrados” pelo vídeo. Conclui-se que a televisão é um instrumento “antropogenético” e que pensamos segundo conceitos que são entidades invisíveis e não expressam concretude alguma. 
“Na verdade a televisão produz imagens e apaga conceitos (…) e desse modo atrofia nossa capacidade de abstração e com ela nossa capacidade de compreender (…) É justamente este o processo que vem sendo atrofiado quando o homo sapiens é suplantado pelo homo videns”.

No capítulo Primazia da imagem de sua obra “Homo Videns” o cientista político italiano Giovanni  Sartori faz uma reflexão sobre os veículos de comunicação, desde o telégrafo a internet, e como eles  vêm afetando a sociedade pelas suas diferentes formas de transmissão de informação. Segundo Sartori, Gutenberg revolucionou os meios de comunicação, uma vez que após a descoberta das copiadoras, a escrita tornou-se algo acessível a todos. A partir dessa situação, no século XIX começou um grande avanço tecnológico, o pioneiro foi o jornal, logo depois o telégrafo, seguido do telefone, rádio, TV – que foi uma ruptura da comunicação pois agrega imagem e voz em um só espaço –  e por fim a internet, que revolucionou ainda mais pois além da imagem e da voz também possui a palavra.

   Nem todo progresso tecnológico pode ser visto como um progresso, afirma Sartori. O progresso é apenas aquilo que eleva o crescimento de uma civilização, por exemplo a TV em sentido progressiva pode ser classificada como progressista, ou seja, quando ela não tem como objetivo a quantidade de informações mas com sua qualidade, o mesmo vale para a internet. Porem a internet oferece diferentes produtos, mas mesmo assim acaba alienando muito mais que os outros meios, apesar do seu poder intelectual é utilizada em sua maioria apenas para a distração.  

    Em Bourdieu, fala-se na formação de habitus, e não com referência ao hábito da leitura, como acima, mas ao hábito visto como algo essencialmente negativo. Assim como Sartori, Bourdieu é um autor que possui perspectivas apocalípticas da cultura midiática. O habitus pressuporia um código de aceitação social. Aqui aparece o poder coercitivo do capital cultural, que não teria relações diretas com a economia mas sim com as formas de organização social em classes. A violência simbólica, inserida no capital cultural, legitima a dominação quando posta em prática por meio dos estilos de vida. Assim o poder da linguagem, expressando erudição, por exemplo, seria mais forte que a força no sentido literal. E é imprescindível ressaltar que Bourdieu engloba toda a problemática dentro do debate acerca da instituição social escolar. Pois é lá, com toda a sua formação previamente estabelecida para perpetuar essa sistematização que o poder “aos poucos e bons” e a submissão da maioria popular serão propagados.

    Thompson escreveu A mídia e a modernidade, com o intuito de discutir os reflexos avassaladores dos meios mais recentes na sociedade. Para o autor, a relação entre o emissor e o receptor, durante o processo de transmissão de informações, altera-se, criando novas formas de interação entre eles. Com isso, o envio unidirecional do emissor ao receptor se reformula num procedimento cíclico em que ambos interagem – principalmente com o nascimento do ciberespaço, uma mistura de uma realidade dialógica presencial com a de comunicação através da mídia de massas. Os três estudiosos expressam suas teorias de forma bem específica, relacionando-se entre si.

   Ao tratar das questões atreladas ao jornalismo e à manipulação da mídia, Bourdieu tem uma abordagem bastante pessimista. Por trás da aparência e dos traços mais evidentes do jornalismo, está uma estrutura que gera fenômenos concretos e visíveis, em uma tendência típica da corrente pós-estruturalista. Como é defendido pelo próprio autor, depois de definir o campo em questão – a somatória de atores, regras e forças que permite o funcionamento do que conhecemos por jornalismo – há uma intersecção entre o campo jornalístico, o político e o econômico. Essa estrutura faz com que, mesmo em uma reportagem que seja considerada “imparcial”, uma série de fatores ligados aos outros campos influencie a produção final do texto. Essa estrutura acaba por ser impeditiva e conta com a tendência jornalística de apresentar temáticas de maneira objetiva e simplista.

   Um exemplo de abordagem falha e simplista, que contou com uma verdadeira deformação da chamada “verdade factual”, foi o recente caso de corrupção envolvendo a Prefeitura de São Paulo. Um dos maiores jornais do Brasil, a Folha de S. Paulo noticiou que o “Auditor preso diz que ‘prefeito’ tinha ciência de tudo”. O “inconveniente” da publicação foi que, ao lado da manchete, estava a foto do atual prefeito da cidade, Fernando Haddad (PT), e não do ex-prefeito Gilberto Kassab (DEM), sendo este o real acusado no escândalo que envolveu quantias consideráveis da Prefeitura. O jornal leva em consideração uma pressão política e o favorecimento de determinado partido, além de, notavelmente, levar em conta o fator econômico – seja em matérias como essa, seja nos anúncios publicitários e sua influência no conteúdo veiculado.

   Já o conteúdo veiculado sobre os conflitos na Síria deixou clara a abordagem simplista que prevalece em muitos veículos da atualidade. Os grupos políticos foram reduzidos a infográficos e a questão não ultrapassava o básico e não retomava conflitos históricos ou uma bagagem política dos envolvidos. Quando à intervenção militar por parte dos EUA parecia iminente, os textos não mencionavam possíveis interesses dos países europeus e da potência estadunidense na região, nem abordava a questão de armas químicas e nucleares com a devida profundidade. Ao tratar da ação do Conselho de Segurança das Nações Unidas, os jornais sequer discutiam a estrutura falha e antidemocrática do conselho, em que todos votam, mas pouquíssimos decidem, ou a falta de ação da ONU para impedir abusos no país. Multiplicaram-se matérias com cunho extremamente raso e superficial, dando destaque à imagem típica dos países árabes e de dinâmicas sociais na região.

Bourdieu, porém, salienta a hipótese de que a mídia não é capaz de dizer como se deve pensar, mas sobre o que se deve pensar. Não necessariamente (e, aliás, raramente) proporcionando uma expressão da opinião pública, mas formulando qual deve ser assunto de relevância nacional, de acordo com as necessidades de mercado. Ou, como Bourdieu nomeia, os “assuntos-ônibus”, que não chocam, não causam desconforto. E por isso tendem a homogeneizar, conformar, banalizar, despolitizar… Para o autor, essas “futilidades” preenchem os minutos importantes que deveriam ser destinados a um jornalismo crítico, ocultando assuntos realmente relevantes.

John B. Thompson também acredita que não é possível manipular pessoas, mas sim manipular a informação, já que a interpretação da mesma fica por parte do receptor. Thompson acredita que o desenvolvimento dos meios de comunicação é uma reelaboração do caráter simbólico da vida social, pois estes meios tratam da produção, do armazenamento e da circulação de significados para os indivíduos e sua relação social. E também usa a ideia de Bourdieu sobre os campos de interação, dentro dos quais os indivíduos se situam em diferentes posições, dependendo do tipo e da quantidade de recursos disponíveis. Essa posição é ligada ao poder que o indivíduo possui. Ao falar nas formas de poder, o autor as caracteriza em: poder político (associado ao governo, às instituições políticas, as leis); poder econômico (de mercado); poder coercitivo (que faz com que o indivíduo tome determinadas decisões, ou se submeta a situações específicas, como por exemplo, por meio da violência, da retórica, pelo poder militar, por instituições carcerárias e etc); e o poder simbólico (onde se encontra a mídia e as instituições culturais, como a escola, a Igreja, a universidade e etc.).

Sendo assim, a mídia é uma instituição paradigmática do poder simbólico – ou seja, proporciona bases privilegiadas ao exercício desse poder, sendo este, entre todos os poderes, o mais importante na visão de Thompson, pois influencia diretamente os outros três. A informação ou o conteúdo simbólico é transmitido do produtor para o receptor pelo meio técnico, responsável pela fixação, reprodução e armazenamento. E essa possibilidade de reprodução é uma das características que estão na base da exploração comercial dos meios de comunicação, da mercantilização das formas simbólicas. Mesmo com tantas teorias, que não incluem apenas os pensadores citados, a questão da mídia continua passível a discussões e plural.