Tags

, , , , ,

5948514067_fec678977b_o

As sociedades disciplinares atingem seu apogeu no início do século XX e baseiam-se na organização dos grandes meios de confinamento. O projeto ideal desses meios está em concentrar, distribuir no espaço, ordenar no tempo e compor no espaço-tempo uma força produtiva cujo efeito deve ser superior à soma das forças elementares. Foi responsável por “fabricar” o indivíduo como produtor-consumidor. Essa sociedade disciplinar, entretanto, está sendo substituída pelas sociedades de controle, por conta de uma crise generalizada dos meios de confinamento.

Como parte da sobrevivência da metrópole, o indivíduo busca o anonimato como forma de proteção. Não há grandes relações coletivas, e o Estado necessita buscar uma forma de identificação para cada indivíduo, a qual se dá pelo objetivo comum a todos: a busca da vida. Assim, o Estado compromete-se a propiciar à população a longevidade, a saúde pública, o lazer e etc. Trata-se de uma política de potencialização da vida, da sociedade biopolítica, em que o próprio controlado é colaborador do controlador. Por meio das leis, o Estado tenta construir uma situação de igualdade, que por sua vez tende a diminuir as liberdades individuais.

Segundo Foucault, a disciplina é interiorizada, os valores são introjetados. Essa disciplina é exercida fundamentalmente por três meios globais absolutos: o medo, o julgamento e a destruição. Logo, com o colapso das antigas instituições imperialistas, os dispositivos disciplinares tornaram-se menos limitados. As instituições sociais modernas produzem indivíduos sociais muito mais móveis e flexíveis que antes. Essa transição para a sociedade de controle envolve uma subjetividade que não está fixada na individualidade. O indivíduo não pertence a nenhuma identidade e pertence a todas. Mesmo fora do seu local de trabalho, continua a ser intensamente governado pela lógica disciplinar.

As sociedades de controle estão em variação contínua. Não há recomeço, como nas sociedades disciplinares, mas sim a coexistência de cada confinamento – a formação, a empresa, o serviço- em uma mesma modulação. O essencial para a sociedade de controle é a cifra, o dinheiro. Sua posse promove o acesso à informação. E sua ausência, à rejeição.

As multidões tornam-se forma do cenário comum à Modernidade. Esse ambiente cria uma atmosfera em que as antigas massas, agora individualizadas, parecem impedir maior interação entre as pessoas. Reféns de uma lógica que busca a longevidade e zela pela vida individual, sem que haja uma preocupação com a parte coletiva ou organização, os indivíduos passam a reproduzir essa mesma lógica em suas esferas privadas, além da esfera pública. Como testemunhou Baudelaire, no clássico “As Flores do Mal”, ao se fascinar pelas multidões de Paris e por seus “heróis” miseráveis, a exemplo das prostitutas e dos mendigos.

A ideia de uma felicidade individual – e da necessidade, ou obrigatoriedade dessa felicidade previamente estipulada, conceituada e propagada – supera quaisquer esforços para colocar em destaque um interesse coletivo. Aos poucos, esvaiu-se de real significado a ideia de que há um interesse comum. Em um de seus textos mais famosos e polêmicos, “Contra os Direitos Humanos”, por exemplo, Slavoj Zizek afirma que há um fortalecimento de uma vida destinada à obtenção de prazer, em detrimento da dedicação a uma causa coletiva ou a alguma causa ideológica maior. É isso que permite a desarticulação de movimentos sociais, sua fragilização, o desfalque de suas lideranças, uma maior rendição das massas ao que parece ser uma sociedade pacífica, em que se pressupõe que o Estado zele pela manutenção da vida e pelo bem-estar social.

Nas duas últimas décadas, com o intenso fluxo de trocas comerciais e culturais, houve um aumento da dependência e fragilidade da política dos estados, em prol da liberdade proporcionada por esse fenômeno que transforma a hegemonia estatal para algo mais limitado, que deve considerar outros agentes, como organizações supranacionais e movimentos sociais. Apesar disso, e até como forma de combate, o Estado cria formas de controle social.

Um exemplo disso pode ser verificado no filme “A Onda” (2009), de Dennis Gansel. No longa metragem, o professor Rainer Wenger é colocado para lecionar a disciplina de autocracia numa escola alemã. Para exemplificar esse sistema político, o educador opta por simular um governo fascista com seus alunos, com direito a cumprimentos, uniformes e outros elementos típicos durante o período em que a Alemanha viveu em tal regime. Porém, o que era para ser levado como aprendizado sobre o sistema de governo, começa a sair de controle à medida que seu contexto da sala de aula ultrapassa os limites pedagógicos, alcançando o mundo real.

O que quer vender são serviços, e o que quer comprar são ações

Deve-se levar em consideração que essa sociedade opera dentro do capitalismo de sobre-produção, dirigido para o mercado. Como afirma Deleuze, “o que quer vender são serviços, e o que quer comprar são ações”. As conquistas do mercado se fazem pela tomada de controle, e não mais pela disciplina. Assim, o marketing é um instrumento de controle social, que é contínuo, ilimitado, de rotação rápida e de curto prazo ao passo que a disciplina era de longa duração, infinita e descontínua. Nesta sociedade do consumo, o atual confinamento do homem se faz pelo endividamento. Nesta sociedade, o homem é refém de uma liberdade pressuposta e falsa, graças aos mecanismos de um controle aperfeiçoado durante décadas.