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Existe um tipo de tempo para cada tipo de mídia. A internet, mais que outras mídias, traz alteração de tempo e espaço para a sociedade. O rádio e a televisão representam mídias massivas em que há possibilidade de alteração do seu conteúdo, ou seja, a indústria filtra as informações que são emitidas aos seus receptores. Na internet, por conta da comunicação entre os “IPs”, esse controle não é possível. Um bom exemplo da liberdade virtual são as redes sociais, onde a interação entre as pessoas é facilitada e não controlada. Porém, essas redes virtuais, que seriam perfeitas para ser utilizada como uma “Ágora Virtual” – lugar que comportaria um número enorme de pessoas para que discutissem sobre a política – acaba alienando e distraindo os seus usuários.

O poder da classe virtual de capitalistas puros ou capitalistas visionários está localizado naqueles que procuram lotear o ciberespaço para fins de acumulação capitalista e controle político. Há uma competição por direitos de propriedade intelectual e um desejo pelo monopólio da comunicação global de dados e a subordinação da rede aos “interesses comerciais predatórios da classe virtual”.

Quanto mais as redes são tratadas pelas corporações como uma grande fiação para se vender produtos a consumidores inertes, mais os hackers – indivíduos virtuais que não se portam como uma classe e atuam em certo sentido como uma multidão conectada, mas suas qualidades partem do individualismo – estão se politizando. A defesa da comunicação distribuída possibilitada pela internet dificilmente será feita pelas forças políticas tradicionais, e quando são é de forma não compreensível.Os Estados interessados no policiamento do mundo e as industrias de copyright tem em comum a tentativa de retirar da Internet as qualidades que a fizeram mais democrática do que as demais mídias de massa. A cultura da liberdade que caracteriza a rede incomoda esses segmentos e os lança em uma jornada de combate a atual dinâmica da Internet.Pelo medo da “excessiva liberdade na internet”, governos fazem rastreamentos com a justificativa de localizar terroristas ou evitar seus atos, mas na verdade se centram nas formas de controle já mencionadas e na indústria de copyright. Ao mesmo tempo em que a internet propicia uma enorme liberdade ela também possui um grande controle na vida do usuário.

É preciso, primeiramente, contextualizar a questão do controle do mundo virtual explicitando toda a discussão que engloba esse item. Sendo assim, apresenta-se a concepção das sociedades de controle.

Segundo o filósofo Michel Foucault, estas seriam nada mais, nada menos do que a projeção dos meio de confinamento – todos unidos, mas interdependentes entre si. E diferentemente das sociedades disciplinares que promulgavam as trocas institucionais da vida humana (da família para a escola, da escola para a caserna, da caserna para a fábrica), o enclausuramento valoriza o controle informacional. Aí é que aparece o capitalismo de sobre-produção. De acordo com Gilles Deleuze em sua análise sobre esse modelo social, Post-scriptum sobre as sociedades de controle, “o marketing é agora o instrumento de controle social (…) O controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado”.

Com isso se conclui que a cultura mercadológica assola nosso dia-a-dia extremamente controlado. E isso só poderia ser proposto, ou ainda mais intensificado, pela mídia. Que, sofrendo transformações constantes e cada vez mais rápidas em sua estrutura, e refletindo no desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação, além de fixar, transmitir e reproduzir a informação, – o que pode, de fato, ser algo positivo – subordina todos os indivíduos e formas antigas de divulgação noticiosa (mídia impressa) à televisão e, agora, com o advento do ciberespaço, à própria virtualização das relações sociais.

Um “parênteses” que se pode fazer ao discutir o tema, e falar de Foucault, faz referência à concepção de “vida nua” proposta por ele. Sua relevância aqui se expressasse justamente no fato de justificar o poder do soberano no sistema governamental. Ela seria associada à vida biológica, e explicaria a manutenção do corpo do cidadão, e não sua vivência. Com isso, observa-se que, contrariamente à imposição do medo ao homem na sociedade disciplinar (“tudo em nome da vida nua”), o “pão e circo” é reprogramado na sociedade de controle, convertendo-se em distração proposta pelo meio comunicativo e atingindo o maior número de pessoas na massa. Lembre-se que quantidade não é qualidade. E é com isso que, atualmente, os meios de comunicação mais desenvolvidos – tecnologicamente falando – têm de lidar.

A web não anula a função “jornalística-manipuladora” do televisor, mas pode agravar as consequências da cultura televisiva, que troca a leitura e o engrandecimento mental pela facilidade das imagens. Ao mesmo tempo, a internet aparece como propícia a uma interação recíproca entre emissor e receptor, já que este pode interagir diretamente. Sendo assim, alguns nomes se propuseram a discutir a influência da comunicação mediatizada, também no que diz respeito à informação digital.

Se, por um lado, o potencial das mídias pode trazer problemas e fortalecer relações de dominante e dominado, outro lado expõe a faceta que permite uma inversão da lógica ou reflexões sobre esta estrutura de dominação. Como no conceito de multidão, de Hardt e Negri, é possível verificar nos grupos – por maiores que sejam – de pessoas, um potencial enorme de energia criativa. Cada qual recebe as informações de mídia a seu modo, sem que possamos ignorar a bagagem cultural e pessoal própria de cada, bem como a capacidade individual de abstração e interpretação. Justamente por tais fatores, em plena sociedade de controle, as mídias são formas de dominação e de potenciais resistências.

Alguns exemplos desse potencial são os que ocorreram ao longo da Primavera Árabe, em que muitas das mobilizações gigantescas que derrubaram ditadores na região e geraram mudanças em países como Iêmen, Egito, Marrocos e Líbia. Essas mudanças no contexto político e social dos países, tenha sido ela adequada ou não ao ideal de democracia ocidental, foram potencializadas pelo uso de novas mídias (Twitter, Facebook e outros mecanismos de comunicação). As Jornadas de Junho, que ocorreram em diversas cidades brasileiras, demonstraram também o potencial das novas mídias e de uma população adepta de tais meios.

Entretanto, é importante salientar que tais movimentações políticas demonstram também certa dispersão e a necessidade de canalizar a energia criativa e o potencial de tais grupos. Para que as mudanças políticas não acabem por retornar à estrutura de dominantes x dominados já comum, reflexões acerca de tais acontecimentos, suas causas e suas consequências a curto e a longo prazo.

A internet é a maior expressão do atual capitalismo informacional. Ela oferece um tipo de liberdade totalmente vigiada e controlada. Seu objetivo é instigar a liberdade que os indivíduos têm de navegar pelo cyberespaço e experimentar diferentes e novas formas de interação social, de fontes de informação e de facilidades tecnológicas.

A questão, aliás, não é apenas vigiar, mas modular e parametrizar os usuários acompanhando suas variações de humor, seus objetivos, seus interesses. Com a análise de dados, de buscas e de visualizações na rede, é possível tentar controlar cada usuário. A internet, antes de tudo, é uma rede de comunicação e controle. E colaborando com esse controle se constata a aceitação do indivíduo ao se conectar a uma rede ciente de seus “termos de uso e privacidade”, aceitação esta que implica na entrega de inúmeros dados codificados aos programadores de tais redes. Quanto mais interatividade há entre os indivíduos, mais troca de informações e coletas de dados é possível pela web.

A nova expressão de poder é a biopolítica baseada no acompanhamento das redes, que pretende transformar em tecnologia todos os processos vitais e sociais, facilitando assim o gerenciamento da sociedade.

Manuel Castells levanta algumas definições de poder em relação às redes: poder de se conectar a uma rede; poder da rede; poder em rede; e poder para criar redes. Este último, uma das formas mais importantes de poder na atualidade.

É necessário se atentar ao fato de que cada rede corresponde a um material cultural ligado a processos de comunicação. Esses processos possibilitam poder de persuasão e adesão de ideias que favoreçam os interesses de seus programadores, ou seja, atuando em uma espécie de manipulação sobre os ideais preexistentes nos usuários.

Em processo de apocalipse ou de integração, não se sabe ao certo onde que o potencial das redes nas relações de poder poderá findar. Todavia, o surgimento de uma mídia multilateral como a internet potencializa a troca de material simbólico entre as pessoas e, como nova mídia, a reconfiguração das fronteiras de tempo e espaço. Provavelmente não viveremos em um mundo de emissores e receptores de mensagens, mas sim de criação e compartilhamento de conteúdo.

Note a mudança: carga informativa unilateralmente propagada, contra composições humanas a n-ésima potência de serem replicadas. Principalmente no país do futebol, onde a imprensa é protegida por uma lei de reserva de mercado e possui um oligopólio poderoso, surgiram manifestações populares massivas, produto de sua organização criativa e, principalmente, do amestrado festival de recrudescimento promovido pelo Estado, apoiado pela grande imprensa.

É importante reconhecer que estamos diante de um processo de rearranjo social em escala mundial. Disposta em uma teia de relações, as redes sociais combinam a pessoalidade humana com a reprodutibilidade técnica. Como resultado, ela, com a ajuda de robôs, seria a ferramenta ideal de dominação e controle, da mesma forma que também o principal vetor de escape da capacidade criativa da multidão.

Poderá ser um deles. Ou os dois. Ou nenhum.