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Karl Marx02

É extremamente comum, hoje em dia, principalmente às últimas gerações, que tem uma visão simultaneamente ideologizada pelo capitalismo imperante e enfraquecida pela falta de observação analítica do real funcionamento desse sistema, enxergar o capital, o lucro, como um direito daquele que merecidamente trabalhou para adquiri-lo. É comum até mesmo interpretar o dinheiro não como um intermédio de troca de produtos, segundo sua concepção originária, mas como um próprio bem adquirido e que garanta uma determinada riqueza (palavra avaliada aqui como uma preponderância de um indivíduo sobre o outro, em termos econômico-sociais; marca da desigualdade social), assim como certo status conferido pelo sistema atual.
O filosofo alemão Karl Marx foi o pioneiro a discutir sobre esses valores da sociedade capitalista. Graças aos mecanismos próprios do sistema, ficam implícitas as diversas formas de dominação do capitalismo burguês sobre a maioria operária (proletariado). Assim, o sistema capitalista resume-se pela relação de dominação daqueles que possuem meios de produção sobre aqueles que não têm. Os mecanismos de dominação capitalista intensificaram-se a partir da Primeira Revolução Industrial, com o início da produção em larga escala. Eles vão desde a exploração do trabalho, a extração da mais-valia até a acumulação gerada pelo consumismo individualista. A exploração da classe dominante sobre a dominada ultrapassa a lógica da troca e entrega-se à lógica do lucro – o proletário, proveniente de uma classe historicamente dominada, vende sua força de trabalho (único bem que possui) para o capitalista, detentor dos meios de produção. O modo de produção força que o proletariado aceite uma situação degradante em que sua força de trabalho não corresponde diretamente a seu retorno no que se convencionou por salário – há ainda uma mais-valia, a força de trabalho não paga pelo capitalista, que permite uma exploração cada vez maior e mais forte. Concomitantemente, seu trabalho para a ser cada vez mais especializado, o proletário perde a noção do processo como um todo e aliena-se da produção e do produto, tal qual retratado em Tempos Modernos, de Charles Chaplin – o homem desumaniza-se em prol do capital e da dominação de uma classe que extrai daquele que nada mais tem senão sua prole o máximo, sem que haja retorno ou possibilidade que os poderes de tais classes se equiparem sem a revolução.

Outra forma de dominação é feita por parte do Estado. Já que o proletário vê-se dependente do salário e há concorrência que pode tirá-lo do pouco que tem, graças a uma parcela da população mantida desempregada e à margem (parcela sempre necessária para garantir o sistema tal como é), é fácil para o governo reprimir qualquer reação aos abusos. A miséria aumenta à medida que o lucro também aumenta, e para sair da miséria que o próprio regime capitalista impõe, o indivíduo vê-se obrigado a trabalhar ainda mais, sem sair deste ciclo. Há ainda uma valoração dada ao “trabalhador”, ao trabalho que glorifica, justificando os esforços desumanos de quem luta para sobreviver em um sistema excludente por definição. Neste momento o medo do desemprego é suficiente para acalmar uma possível revolta, e o capitalismo promete segurança enquanto o proletário necessita do próprio sustento. O poder político, então, é um meio pelo qual a classe dominante mantém seu domínio e exploração.

Marx já dizia que era preciso entender matematicamente a situação do capital, explicitar como se organiza, conhecer o sistema capitalista para modificá-lo e não apelar para teorias utópicas (assim como os ideais do socialismo utópico), para que assim e só assim pudesse haver alguma modificação no sistema. Segundo o pensador, “não é a consciência dos homens que determina o ser social. Ao contrário, é o ser social que determina a consciência”.

Em suma, levando em consideração as discussões feitas por Karl Marx, a maior dominação é a que aliena o homem e o torna dependente do sistema, garantida pela ideologia propagada por diversos recursos do sistema, entre Estado, escola, prisões, hospitais e até mesmo a estrutura familiar – estudados mais a fundo por Michel Foucault. O modo de produção influencia o desenvolvimento da vida social, política e intelectual. A consciência do homem será determinada por sua existência social, e o trabalho passa a ser visto como modo de existência, um meio de viver e fazê-lo parte da sociedade. A noção de trabalho torna-se elemento essencial para uma definição do homem, e não uma expressão, graças à ideologia e à alienação. Segundo Raymond Aron, “interpretada sociologicamente, a alienação é uma crítica ao mesmo tempo histórica, moral e sociológica da ordem social da época. No regime capitalista os homens são alienados,  eles mesmos se perderam na coletividade, e a raiz de todas as alienações é a alienação econômica.”  De fato, o indivíduo perde-se no que é propagado às massas e passa a ser dominado pelo capital graças a esse tipo de mecanismo. Dominado, controlado, alienado.

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